Paciente pode ter sido curado de infecção por HIV graças a transplante de medula óssea

Em 2007, um americano que vivia em Berlim tratava um câncer e realizou transplante de medula óssea. Conhecido como “paciente de Berlim”, ele também havia sido diagnosticado com HIV 12 anos antes e, após o tratamento, viu o vírus desaparecer de seu corpo. Agora, um novo paciente pode ter sido curado da infecção por HIV graças ao transplante de medula óssea – ele seria o segundo paciente em 12 anos a ser curado do vírus que causa a Aids.

Especialistas ainda estão cuidadosos em afirmar que trata-se, de fato, da cura da doença. Publicamente, o caso tem sido descrito por cientistas como uma “remissão” a longo prazo. Os pesquisadores devem publicar um relatório nesta terça-feira (5) na revista Nature e apresentar alguns dos detalhes na Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas em Seattle.

O paciente do novo caso preferiu manter o anonimato e tem sido chamado apenas de “paciente de Londres”. Ele, assim como Timothy Ray Brown, o paciente de Berlim, passava por um tratamento para o câncer e por isso recebeu o transplante de medula óssea.

De acordo com a reportagem do New York Times, que revelou o caso em primeira mão, “é improvável que o transplante de medula óssea seja uma opção de tratamento realista no futuro próximo”. Isso porque os transplantes são arriscados e os efeitos colaterais, severos; em contrapartida, já existem drogas que controlam a infecção por HIV de maneira eficaz.

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Lembrando o caso do paciente de Berlim

O que os cientistas pesquisam há tempos e tentam replicar é rearmar o corpo com células imunes modificadas para resistir ao vírus. Médicos tentavam replicar o tratamento realizado no paciente de Berlim, mas o vírus sempre retornava com força ou os pacientes morriam de câncer.

Na época, Brown sofria com a leucemia e, após a quimioterapia não ter conseguido impedir o avanço da doença, precisou de dois transplantes de medula óssea. Ele, então, recebeu a doação de uma pessoa com uma mutação em uma proteína chamada CCR5, que fica na superfície de algumas das células do sistema imunológico. O HIV “escolhe” essa proteína para entrar nessas células, mas não consegue se agarrar à versão mutante.

Brown recebeu drogas imunossupressoras de um tipo que não é mais usado e sofreu complicações intensas durante meses após o transplante. Ele foi colocado em coma induzido em um ponto e quase morreu.

O caso do paciente de Londres

Brown quase morreu, porém o paciente de Londres teve um tratamento muito mais tranquilo. Ele tinha um linfoma de Hodgkin e recebeu um transplante de medula óssea de um doador com a mutação CCR5 em maio de 2016. Assim como Brown, ele recebeu drogas imunossupressoras, mas com um tratamento foi muito menos intenso e que estava de acordo com os padrões atuais para pacientes transplantados.

Ele deixou de tomar drogas anti-HIV em setembro de 2017. Agora, ele é considerado o primeiro paciente desde Brown a ficar livre do vírus por mais de um ano depois de deixar o tratamento contra o HIV.

O paciente de Londres não estava tão doente quanto Brown após o transplante. Ainda assim, o procedimento acabou com o seu câncer, sem trazer grandes efeitos colaterais. As células imunitárias transplantadas, agora resistentes a HIV, parecem ter substituído completamente as suas células vulneráveis.

Cientistas analisaram diversas vezes o sangue do paciente de Londres para se certificarem que o vírus do HIV já não estava mais presente. Eles encontraram uma indicação fraca de infecção contínua em um dos 24 testes, mas afirmam que isso pode ser o resultado de contaminação na amostra. O teste mais sensível não encontrou nenhum vírus circulante.

A mutação delta 32, a proteína CCR5 e o vírus X4

A mutação resistente ao HIV se chama delta 32 e a maioria das pessoas que a possuem tem descendência do norte da Europa. O IciStem, consórcio de cientistas europeus que estudam transplantes de células-tronco para tratar a infecção por HIV, possui banco de dados de cerca de 22.000 desses doadores com a mutação.

Já a proteína CCR5 é a que sofre a mutação e que impede que o HIV se reproduza. Foi essa a proteína que He Jiankui, o controverso cientista chinês responsável pelas bebês gêmeas geneticamente modificadas, diz ter usado para supostamente torná-las resistentes à HIV.

Caso cientistas consigam criar terapias genéticas capazes de ajustar os genes que direcionam a produção do CCR5, será possível avançar na tentativa de curar a Aids. Porém, o vírus HIV nem sempre usa apenas o CCR5 para entrar no corpo. De acordo com Timothy J. Henrich, especialista em Aids na Universidade da Califórnia, São Francisco, esses casos representam “provavelmente cerca de 50% das pessoas que vivem com o HIV, ou menos”.

Há pacientes que são vulneráveis a uma forma de HIV denominada X4, que emprega uma proteína diferente, a CXCR4, para entrar nas células. Nestes casos, esse tratamento não funcionaria.

Ainda que um paciente tenha um pequeno número de vírus X4, ele poderia de multiplicar na ausência de competição.

Há pelo menos um caso registrado de um indivíduo que recebeu um transplante de um doador delta 32, mas depois teve um rebote com o vírus X4.

Outros casos

Os cientistas do IciStem estão monitorando 38 pessoas infectadas com HIV que receberam transplantes de medula óssea, incluindo seis de doadores sem a mutação.

O paciente de Londres é o número 36 da lista. Outro, o número 19 da lista, conhecido como “paciente de Düsseldorf”, parou de tomar drogas anti-HIV há quatro meses. Detalhes desse caso serão apresentados na conferência do final desta semana.

[New York Times]

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