Por que não entrar em pânico sobre a carne vermelha e bacon causarem câncer

Um relatório surpreendente de uma equipe internacional de cientistas diz que carnes processadas, como salsichas e bacon, são definitivamente uma causa para o câncer, enquanto a carne vermelha é uma causa provável. Eis o que isto significa para a sua saúde, e por que não há nenhum motivo para entrar em pânico.

Uma equipe internacional de especialistas concluiu que ingerir carnes processadas – como salsichas, linguiças e bacon – causa câncer de intestino, enquanto o consumo de carnes vermelhas – incluindo carne bovina, de porco, vitela e cordeiro – é provavelmente cancerígeno.

Eles analisaram mais de 800 estudos sobre a associação entre mais de dez formas de câncer ao consumo de carne processada ou vermelha em diferentes países, e entre as populações com diferentes dietas.

O Washington Post diz que esta é “uma das posturas mais agressivas contra a carne já tomadas por uma grande organização de saúde”, acrescentando que “ela deve sofrer duras críticas nos Estados Unidos”. Esta conclusão está causando um grande temor, e nos fazendo repensar como deve ser uma dieta saudável.

Sem dúvida, este é um relatório importante, mas especialistas em saúde dizem que não devemos exagerar a extensão dos resultados, nem correr para eliminar completamente as carnes vermelhas e processadas de nossa dieta.

Eis os principais pontos:

– o risco de desenvolver câncer por causa de carne processada é bem pequeno, especialmente se comparado a fatores como o cigarro;

– o risco de câncer não é extremamente diferente entre pessoas que consomem muita carne e pessoas que comem pouco;

– vários estudos nessa área podem trazer “falsos positivos”, ou seja, mostrar que algo causa câncer quando isso não é verdade;

– a carne é boa em moderação, por ser uma boa fonte de nutrientes como proteína, ferro e zinco – mas não exagere.

Causas definitivas e prováveis

Em 2014, um comitê internacional decidiu que os efeitos do consumo de carnes processadas e vermelhas deveria ser uma área de estudo prioritária para o programa de monografias da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), da Organização Mundial da Saúde.

Já se sabe há algum tempo que certas carnes têm uma associação ao câncer; o relatório mais recente, disponível no The Lancet, oferece pouca novidade. Ele se limita a reunir a literatura existente em uma maneira que finalmente permite aos cientistas fazer algumas proclamações definitivas sobre os riscos de câncer nas carnes processadas e vermelhas.

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(Crédito: DyanneGonzlaes/pixabay)

Depois de vasculhar décadas de literatura científica, um grupo de trabalho do IARC com 22 especialistas de dez países classificou o consumo de carne processada como cancerígeno do Grupo 1 para os seres humanos. Carnes processadas são definidas como carnes que foram transformadas através da salgação, cura, fermentação, fumo ou outros processos para realçar o sabor ou melhorar a preservação.

Outras formas de câncer – no estômago e pâncreas – também foram associadas a certas carnes, embora estas associações sejam mais difíceis de provar. O grupo do IARC categorizou a carne vermelha como um provável cancerígeno de Grupo 2A para os seres humanos, com base em “evidências limitadas”.

Quando os pesquisadores dizem que a causa é definitiva, eles estão alegando que há provas convincentes o bastante recolhidas a partir de experiências com animais, estudos de dieta e da saúde humana, e causas mecânicas (como mecanismos celulares) do câncer.

Enquanto isso, a causa é provável quando as provas são limitadas: os pesquisadores dizem que observaram uma associação positiva no aparecimento de câncer colorretal.

Segundo o Washington Post, o relatório será “provavelmente usado no lobby político, e em mensagens de marketing para os consumidores”, mas as reações negativas ao relatório também mostram como é difícil para os cientistas ligar qualquer alimento a uma doença crônica:

Experimentos para testar se um alimento causa câncer representam um enorme desafio logístico – eles exigem um controle da dieta de milhares de pessoas ao longo de muitos anos. Por exemplo, um grupo teria que comer muita carne, e outro menos ou nenhuma carne.

Mas, por uma variedade de razões que envolvem custos e a dificuldade em encontrar “cobaias”, tais experimentos raramente são feitos, e os cientistas não costumam usar outros métodos menos diretos, conhecidos como estudos epidemiológicos ou observacionais, para tirar suas conclusões.

“Eu entendo que as pessoas possam estar céticas quanto a este relatório sobre carne, porque os dados experimentais não são muito fortes”, disse Paolo Boffetta, professor do Tisch Cancer Institute na Mount Sinai School of Medicine que participou de painéis semelhantes na OMS. “Mas, neste caso, a evidência epidemiológica é muito forte.”

Outros cientistas, no entanto, criticaram os estudos epidemiológicos porque, muitas vezes, eles trazem “falsos positivos”, isto é, concluem que algo causa câncer quando isso não acontece.

O relatório estará sujeito a uma quantidade considerável de escrutínio nas próximas semanas e meses.

Entendendo o risco

“Para um indivíduo, o risco de desenvolver câncer colorretal por causa de seu consumo de carne processada é pequeno, mas este risco aumenta com a quantidade de carne consumida”, observou Kurt Straif, chefe do programa de Monografias da IARC, em um comunicado. “Tendo em vista o grande número de pessoas que consomem carne processada, o impacto global sobre a incidência de câncer é importante para a saúde pública”.

Os pesquisadores dizem que o risco de câncer colorretal aumenta em até 18% com cada porção de 50 gramas de carne processada ingeridos diariamente, e aumenta em 17% a cada 100 gramas de carne vermelha.

Mas é importante manter estes números em perspectiva. O Cancer Research UK explica:

Lembre-se de que todos estes números são estimativas – o risco de cada pessoa será diferente, pois há muitos fatores diferentes em jogo.

Sabemos que, de cada 1.000 pessoas no Reino Unido, cerca de 61 irão desenvolver câncer de intestino em algum momento de suas vidas. Aqueles que comem menos carne processada têm risco menor do que o resto da população – cerca de 56 casos por cada 1.000 pessoas que comem pouca carne.

O tabaco e o amianto também são classificados como agentes cancerígenos de Grupo 1, mas isso não significa que carnes processadas são tão cancerígenas quanto esses agentes. Na verdade, as classificações do IARC apenas descrevem a força da evidência científica quanto a uma possível causa de câncer. Sim, carnes processadas e cigarros causam câncer, mas em graus dramaticamente diferentes.

Estimativas recentes sugerem que, em todo o mundo, 34.000 mortes por câncer a cada ano podem ser atribuídas a dietas ricas em carne processada. As dietas ricas em carne vermelha, que não foram associadas com certeza como uma causa direta de câncer, podem ser responsáveis por cerca de 50.000 mortes por ano em todo o mundo. Em contrapartida, o tabagismo causa cerca de 1.000.000 de mortes por ano, enquanto o consumo de álcool causa 600.000 mortes por ano no mundo todo.

Por que certas carnes causam câncer? Basicamente, isso provavelmente tem algo a ver com a forma como ela é cozida. Eis o que a IARC tem a dizer:

A carne consiste em vários componentes, tais como o ferro hemo. Ela também pode conter produtos químicos que se formam durante o processamento da carne ou cozimento: por exemplo, produtos químicos carcinogênicos que se formam durante o processamento da carne incluem compostos N-nitrosos e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos… os quais também são encontradas em outros alimentos e na poluição do ar.

Alguns destes produtos químicos são conhecidos ou suspeitos carcinógenos. Apesar disso, ainda não é totalmente compreendido como o risco de câncer é aumentado com a carne vermelha ou carne processada.

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(Crédito: stux/pixabay)

Quanta carne devo comer?

O que tudo isso significa em termos de ajustar nossos hábitos de comer carne?

“Estes resultados apoiam recomendações mais atuais de saúde pública para limitar o consumo de carne”, diz Christopher Savage, diretor da IARC. “Ao mesmo tempo, a carne vermelha tem valor nutricional. Portanto, estes resultados são importantes para permitir que os governos e as agências reguladoras internacionais realizem avaliações de risco, a fim de equilibrar os riscos e os benefícios de comer carne vermelha e carne processada e para fornecer as melhores recomendações dietéticas possíveis.”

Muitos especialistas em saúde e dieta concordam, incluindo o médico David Wallinga da Universidade de Minnesota (EUA):

Estas são duas mais altas classificações de câncer da OMS. O risco aumenta com a quantidade de carne consumida. Não seria boa medicina esperar mais tempo antes de aconselhar vivamente o público a comer menos carne vermelha e especialmente menos carne processada. As recomendações da OMS também incluem comer dietas mais elevadas em grãos e legumes, além de limitar carnes vermelhas e processadas, por causa de evidências de que as fibras protegem contra o câncer.

A decisão da OMS vem após uma tendência crescente de comer menos carne nos EUA. O consumo de carne vermelha entre os americanos caiu cerca de 25% desde a década de 1970. Mas eles ainda comem, em média, 860 g de carne vermelha por semana – quase o dobro da quantidade recomendada pela União Europeia de não mais que 500 gramas semanais.

Enquanto isso, o consumo de carne no Brasil vem crescendo, de 690 g semanais em 2010 para 808 g em 2013, segundo a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil).

Wallinga diz que devemos comer menos carne, e carnes melhores. E Dunlop diz que a carne vermelha e processada ainda tem seu lugar em uma dieta saudável.

“Comer regularmente grandes quantidades de carne vermelha e processada, durante um longo período de tempo, provavelmente não é a melhor abordagem se você está quer ter uma vida longa e saudável”, diz ele. No entanto, “a carne é boa em moderação – é uma boa fonte de nutrientes como proteína, ferro e zinco. Basta apenas ser sensato e não comer demais, ou com muita frequência.” Também é uma boa ideia substituir essas carnes por frango, peru ou peixe, enquanto se acrescenta mais fibras, frutas e vegetais.

[Washington Post | NRDC Switchboard | Cancer Research UK]

Primeira foto via PDPhoto.org/domínio público

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